Em audiência com os membros da Comissão Teológica Internacional, o Papa
bento XVI explicou que o esquecimento de Deus na sociedade atual leva a
uma forma de relativismo que, indevidamente, gera violência. Esta, ao
contrário do que afirmam alguns, não deve ser atribuida às religiões
monoteístas.
O
Pontífice assinalou que “hoje, este mesmo sentido sobrenatural da fé
dos crentes leva a reagir com vigor também contra o preconceito segundo o
qual as religiões, e em particular as religiões monoteístas, seriam
intrinsecamente portadores de violência, sobretudo por causa do
argumento de que elas têm a pretensão da existência de uma verdade
universal".
"Alguns acreditam que apenas o “politeísmo de
valores” garantiria a tolerância e a paz civil seria conforme o espírito
de uma sociedade democrática pluralista. Nesta direção, o vosso estudo
sobre o tema “Deus Trino, unidade dos homens. Cristianismo e monoteísmo”
é de viva atualidade. Por um lado, é essencial lembrar que a fé no Deus
único, Criador do céu e da terra, atende às exigências racionais da
reflexão metafísica, a qual não é enfraquecida, mas reforçada e
aprofundada na Revelação do Mistério de Deus-Trino".
O Papa explicou que "é necessário salientar a forma que a Revelação definitiva do mistério do único Deus toma na vida
e morte de Jesus Cristo, que vai ao encontro da Cruz como “cordeiro
conduzido ao matadouro” (Is 53,7). O Senhor dá testemunho a uma rejeição
radical de cada forma de ódio e violência em favor do primado absoluto
da ágape".
"Se, portanto, na história, houve ou há formas de
violência feita em nome de Deus, estas não são atribuídas ao monoteísmo,
mas às causas históricas, principalmente aos erros dos homens. Pelo
contrário, é o próprio esquecimento de Deus que imerge as sociedades
humanas em uma forma de relativismo, que gera inevitavelmente a
violência".
Bento XVI ressaltou que "quando se nega a possibilidade para todos de referir-se a
uma verdade objetiva, o diálogo transforma-se impossível e a violência,
declarada ou oculta, torna-se a regra dos relacionamentos humanos. Sem a
abertura ao transcendente, que permite encontrar as respostas às
perguntas sobre o sentido da vida e sobre a maneira de viver de modo
moral, sem esta abertura o homem torna-se incapaz de agir segundo a
justiça e de empenhar-se pela paz".
O Santo Padre manifestou
apreço pela mensagem da Comissão Teológica Internacional por ocasião do
Ano da Fé que "ilustra bem o modo específico no qual os teólogos,
servindo fielmente à verdade da fé, podem participar do esforço
evangelizador da Igreja
".
Essa
mensagem retoma as questões do documento "A teologia hoje.
Perspectivas, princípios e critérios”, publicado no início deste ano.
Tomando nota da vitalidade e da variedade da teologia depois do Concílio
Vaticano II, este documento pretende apresentar, por assim dizer, o
código genético da teologia católica, isso é, princípios que definem a
sua própria identidade e, por consequência, garantem a sua unidade na
diversidade das suas realizações".
"Em um contexto cultural em
que alguns são tentados ou a privar a teologia de um estatuto acadêmico,
por causa de sua ligação intrínseca com a fé, ou de prescindir da
dimensão crente e confessional da teologia, com o risco de confundi-la e
de reduzi-la às ciências religiosas, o vosso documento recorda
oportunamente que a teologia é inseparavelmente confessional e racional e
que a sua presença dentro da instituição universitária garante, ou
deveria garantir, uma visão ampla e integral da própria razão humana".
O
Papa assinalou que, entre os critérios da teologia católica, o
documento menciona a atenção que os teólogos devem prestar ao "sensus
fidelium".
"O Concílio Vaticano II, enfatizando o papel específico e
insubstituível que cabe ao Magistério, salientou, no entanto, que todo o
Povo de Deus participa na função profética de Cristo, realizando assim o
desejo inspirado, expresso por Moisés: “Prouvera a Deus que todo o povo
do Senhor profetizasse, e que o Senhor lhe desse o seu espírito!”",
disse o Santo Padre.
"Este dom, o sensus fidei, constitui no
crente uma espécie de instinto sobrenatural, que tem uma conaturalidade
vital com o mesmo objeto da fé. Observamos que propriamente os simples
fiéis carregam em si esta certeza, esta segurança do sentido da fé. O
sensus fidei é um critério para discernir se uma verdade pertence ou não
ao depósito vivo da tradição apostólica".
"Para este efeito, o
texto esclarece os critérios para uma teologia autenticamente católica
e, portanto, capaz de contribuir com a missão da Igreja, com o anúncio
do Evangelho a todos os homens. Em um contexto cultural em que alguns
são tentados ou a privar a teologia de um estatuto acadêmico, por causa
de sua ligação intrínseca com a fé, ou de prescindir da dimensão crente e
confessional da teologia, com o risco de confundi-la e de reduzi-la às
ciências religiosas, o vosso documento recorda oportunamente que a
teologia é inseparavelmente confessional e racional e que a sua presença
dentro da instituição universitária garante, ou deveria garantir, uma
visão ampla e integral da própria razão humana".
O Papa ressaltou
ademais que "Se o fracasso do relacionamento dos homens com Deus traz
em si um desequilíbrio profundo nas relações entre os próprios homens, a
reconciliação com Deus, feita pela Cruz de Cristo, “nossa paz” (Ef
2,14), é a fonte fundamental da unidade e da fraternidade”.
“Nesta
perspectiva, coloca-se também a vossa reflexão sobre o terceiro tema,
aquele da doutrina social da Igreja no contexto da doutrina da fé. Essa
confirma que a doutrina social não é uma adição extrínseca, mas, sem
esquecer a contribuição de uma filosofia social, recebe os seus
princípios básicos nas próprias fontes da fé”.
“Tal doutrina
procura tornar efetivo, na grande diversidade das situações sociais, o
mandamento novo que o Senhor Jesus nos deixou: “Como eu vos amei, assim
amais também vós uns aos outros”".
“Rezemos
à Virgem Imaculada, modelo de quem escuta e medita a Palavra de Deus,
que vós recebais a graça de servir sempre alegremente a inteligência da
fé em favor de toda a Igreja. Renovando a expressão da minha profunda
gratidão pelo vosso serviço eclesial, asseguro-vos a minha constante
proximidade na oração e concedo de coração a todos vós a Benção
Apostólica", concluiu o Pontífice.
Por: ACI Digital